História de mulheres assentadas mostra superação e muita luta

Resistência em assentamento marca novo olhar sobre a figura feminina


A presença feminina no cenário da ocupação de Rondônia tem características bem particulares que a diferenciam da forma como esse acontecimento se deu nas demais regiões do País. O povoamento do Estado, com início no final do século XVII e somando-se a isso diversos ciclos migratórios, celebra a bravura de homens que vieram para a região promovendo o desenvolvimento e progresso de “um lugar embebido em muito atraso”. Mas, há muitos fatos ausentes dos livros de história, principalmente os mais visitados pelo público estudantil, que começam a ganhar espaço em decorrência de uma nova postura científica que busca “aquilo que ficou adormecido no discurso da história oficial e, por vezes, também no senso comum, nas falas do cotidiano”. Exemplo disso são as investigações científicas da última década que revelam a forte contribuição feminina no cenário das correntes migratórias que modificaram todo o espaço amazônico brasileiro.



A pesquisadora Cláudia Nascimento Oliveira, em sua dissertação de mestrado, intitulada “Um lugar para chamar de meu”, traz uma dessas investidas que promovem a emersão de fatos que ficaram por muito tempo na invisibilidade. Privilegiando o modo de vida de homens e mulheres moradores da zona rural, vindos de outras localidades para Rondônia, ela revela que a força das mulheres que habitaram esses espaços foi fundamental para a reconstrução familiar e definição de um novo “lugar” com características diferentes.


A investigação da pesquisadora Cláudia Nascimento Oliveira foi desenvolvida junto aos moradoras do Assentamento Joana D’Arc, III etapa, nas agrovilas. Compondo um total de seis (06) unidades, nomeadas de Padre Ezequiel, Chico Mendes, Sérgio Rodrigues, União dos Camponeses, Pequena Vanessa e Vencedora, o bloco compreende um total de 144 lotes. A pesquisadora relatou que a maioria dos assentados no Joana D’Arc III não participaram do Massacre de Corumbiara. Esses assentados integravam, em sua maioria, o Movimento dos Camponeses de Corumbiara e as primeiras famílias entraram no ano de 1982.



De acordo com as informações, o Massacre de Corumbiara, na Fazenda Santa Elina, aconteceu no dia 9 de agosto de 1995. Ali, onze mortes ocorreram e as famílias desalojadas, a exemplo do que ocorrera em outras regiões do Estado, foram encaminhadas para vários assentamentos rurais, dentre estes, o Joana D’Arc III.


“As mulheres que entrevistamos, em sua maioria, chegaram no Estado na década de 80, quando Rondônia começava a receber essas levas de migrantes. Elas acompanhavam os maridos e, algumas ainda eram crianças. Mas também há aquelas que estavam sozinhas e tentavam conseguir seu pedaço de terra acompanhando os grupos de trabalhadores. As dificuldades eram bem maiores para estas”, explica a pesquisadora Cláudia ressaltando que naquela época o acesso era muito precário, sem estradas, doenças incontroláveis e até mesmo ameças de animais selvagens.


Mulheres ajudavam nas plantações e também desempenhavam as tarefas de casa


As grandes dificuldades enfrentadas pelos assentados do Projeto Joana D’Arc III, no início da implantação, motivaram o abandono da área por dezenas de famílias. Mas, de acordo com relatos de pesquisadores que ainda investigam as relações do local, entre homem e terra, foi a postura feminina, mais ansiosa por um lugar de paz, onde pudesse criar e manter seus filhos em área que fosse sua propriedade por direito, que assegurou “essa espécie de barreira de resistência”.



Um dos aspectos da pesquisa de Cláudia Nascimento diz respeito às relações de gênero dentro da história de lutas dessas famílias. Segundo a pesquisadora, o assentamento Joana D’Arc III apresenta um cenário adequado para o desenvolvimento das discussões propostas. Ela também explica que os dados coletados propiciaram a dedução de que as mulheres do assentamento possuem uma visão particular “e diferenciada de seu papel na sociedade. Ao passarem pelos processos de luta elas começaram a perceber a importância dos movimentos e começaram a buscar os seus direitos”.


A pesquisa de Cláudia Nascimento centra seus pontos de discussão na participação da mulher pela construção do lugar, as influências do conflito de Corumbiara no processo organizacional da comunidade e as características desse novo espaço, o assentamento Joana D’Arc III.


Durante entrevista ao, Cláudia explica que na luta pela terra muitas mulheres tinha atuação, muitas vezes, até mais incisivas que a dos homens. Elas trabalhavam auxiliando os maridos nas plantações e ainda desempenhavam os trabalhos doméstico, cuidando da comida e dos filhos.


Atualidade mostra mulher ocupando mais os instantes de decisões


Pelo menos 20% dos migrantes que vieram para Rondônia são oriundos dos estados de Mato Grosso. Outros 50% chegaram do Paraná. O restante da região Amazônia tem base de formação na migração nordestina. Cláudia Nascimento Oliveira, pesquisadora da temática, analisa a política de colonização que culminou com a transformação do estado rondoniense destacando que muitas famílias chegavam nesse região com a esperança de vida melhor. Porém, esbarravam nas grandes dificuldades que tinham as mais diversificadas características.



Contudo, segundo Cláudia Nascimento, um elemento chamou mais sua atenção para essa investigação. O papel da mulher, pouco lembrado, foi o que de fato lhe acordou para uma averiguação mais aprofundada. De acordo com a pesquisadora, naquela época, início de formação do assentamento Joana D’Arc III, a mulher exercia um papel de segunda importância em função de algumas características típicas do momento, mais centrado em um modelo de estrutura familiar patriarcal. “A mulher quase não participava de decisões políticas, em reuniões entre os próprios assentados para decidir sobre rumos a serem tomados. Atualmente, isso já é um pouco diferente. Ela já está mais presente, apesar de ainda exercer no campo um papel mais tímido do que tem acontecido com a mulher do setor urbano”, explica.


Para comprovar esse nova atuação feminina no que diz respeito ao setor rural a pesquisadora cita o movimento denominado “Marcha das Margaridas”, onde o público feminino reivindica melhorias para os assentamentos onde estas moram, tais como infraestrutura, saúde, dentre outros. Esse movimento agrega representantes de todos os estados e as discussões são conduzidas pelas próprias mulheres.


Um comparativo entre a mulher do seringal e a mulher desse momento, assentada no Joana D’Arc, a pesquisadora explica que são momentos diferentes que não podem ser analisados foram de seus contextos históricos. “Na época do seringal o estado ainda estava sendo iniciado também. Costumo pensar o estado como na época em que o Brasil foi colonizado. E, a mulher tem que ser pensado dentro de seu espaço, como ela se inseria nesse contexto de época”.


História feminina precisa ser contata com mais coerência e justiça



O papel secundário que a mulher exerceu no passado está apenas nos relatos considerados de menor credibilidade. O pensamento que circunda essa nova tendência da produção de pesquisa desmonta os antigos discursos e mostra que a mulher sempre atuou em nível de igualdade com os homens. Essa diferença esteve apenas no campo das interpretações, posto que na prática as mulheres sempre desenvolveram tarefas tão importantes quanto as tarefas masculinas.


A educadora Carla Guedes, ao comentar sobre os motivos do privilégio da presença masculina, na constituição de uma história oficial, explica que a visão de que a mulher exerceu papel secundário está ultrapassada. “Não é novidade a omissão da mulher na história. Seja ela qual for. Meu bisavô, nordestino, veio para Rondônia acompanhado da esposa e filhos. Conseguiu sair antes daqui. Sua esposa ainda ficou e teve que costurar para as ricas senhoras e assim poder comprar passagens de volta para o Nordeste. Soube disso dia desses. Minha própria mãe, sem propósito nenhum, omitia a minha bisavó de todas as histórias que contava.


O discurso trincado de minha mãe, só reflete o que a “História” nos acostumou, que foi ver os homens como verdadeiros desbravadores. Salvadores da pátria. A mulher foi sempre vista em papel secundário, às vezes até inexistente. Pois, não era força matriz na guerra de construção do nosso Estado. Mas ela era e ainda é a base que suporta todas as mudanças”, explica.



Para a educadora, o momento é de rever alguns conceitos que ainda nos parecem confortáveis mas, que precisam ser remodelados. A mulher, que está presente em todas as mudanças e transformações que a história nos atesta, também precisa ocupar o seu espaço nas biografias e bases de informações que orientam as gerações futuras. Para ela, é preciso contar essa história, da mulher, com mais veracidade e justiça.




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