Sobre “Paletó e eu: memórias de meu pai indígena”, livro de Aparecida Vilaça


Durante uma de suas mais recentes estadias junto aos indígenas Wari’, em 2014, Aparecida Vilaça conta que ficou impressionada com aquilo que então considerava ser uma novidade: viu diversas fotografias de seus amigos e parentes Wari’ que jaziam na parede lateral de um quarto. Era o quarto de Paletó, seu pai indígena, de quem Aparecida foi se aproximando e criando essa relação de parentesco, a partir de 1986, quando começou a fazer trabalho de campo como antropóloga, junto aos Wari’, em Rondônia. As fotografias exibiam diversos indígenas com roupas de gala ocidentais, inclusive Davi, que tinha as pernas atrofiadas, e que estava fotografado de pé, ao lado de sua irmã Ja. Intrigada, Aparecida perguntou a Ja se haviam comprado essas roupas, ao que ela lhe respondeu que se tratava de uma fotomontagem, realizada por um especialista de Guajará-Mirim, cidade vizinha às aldeias Wari’.

Refletindo acerca do ocorrido, Aparecida faz uma análise da maneira como a fotografia foi apropriada pelos Wari’, “não em seu aspecto de fixidez, de espelho do mundo, mas de transformação, de projeção de corpos em outro mundo”. Seu livro pode ser lido a partir desse princípio Wari’ da projeção de corpos em outro mundo. É uma tentativa de recriar o indígena Paletó em outro mundo: o mundo dos vivos, o mundo dos brancos, o mundo dos livros, explorando uma relação de afeto e carinho. Paletó aparece na obra composta a partir de trechos de cadernos de campo, sonhos, cenas que existem apenas na memória da autora, assim como transcrições de fitas cassete, conversas e memórias de Paletó, entre outras fontes diversas.

Produzido ao longo de trinta anos, esse material multifacetado é a base para essa espécie de despedida que a autora faz de Paletó. O livro começou a ser elaborado no dia seguinte ao da morte de Paletó, narrada com emoção pela autora no início do livro, compartilhando sua aflição por estar distante de seu pai indígena, e não poder acompanhar de perto o seu enterro, em meio a tentativas de estabelecer contato virtual ou telefônico com suas irmãs e irmãos Wari’.

A trajetória de Paletó não é única. Sua história de vida diz respeito à tantas outras histórias de indígenas que são constantemente alvo de uma tentativa de apagamento. Histórias de povos inteiros sujeitas à imposição violenta de um mundo moderno e seus modo de ser. As lembranças de Paletó sobre os tempos passados, o contato com os seringueiros, os massacres por eles perpetrados contra os Wari’, a chegada dos missionários, os choques epidemiológicos, a resistência indígena, as guerras, as festas, o bom humor e a curiosidade para lidar com o mundo dos brancos, a conversão ao cristianismo – decorrente das ações da organização missionária Missão Novas Tribos Brasil – são todos temas que permeiam o livro. São histórias vividas pelo povo Wari’, similares às de tantos outros povos que residem no território brasileiro.

Ainda em sua reflexão sobre as apropriações subversivas que fazem os Wari’ das fotografias, Aparecida questiona: “quando me lembro que, em 1986, os Wari’ mais velhos muitas vezes não me deixavam fotografá-los, alegando que, quando morressem a visão dessas fotos deixaria seus filhos tristes, tento entender o que aconteceu nesses trinta anos para que mudassem tão radicalmente, a ponto de exibir em suas casas fotos de mortos”.  A autora segue, levantando a hipótese de que talvez essas fotografias possam ter alguma relação com a projeção da imagem dos mortos no céu dos brancos.

Na história dessas transformações, contadas por meio da relação de Aparecida com Paletó, o momento que considero mais triste de todo o livro é a narrativa desesperada que Paletó faz do dia em que sua família foi massacrada por seringueiros que invadiram seu território, logo após uma festa em que seus familiares haviam recebido outros Wari’. Nesse dia mataram seu pai idoso, sua filha pequena, e sua esposa, esta com um tiro na vagina, entre outros parentes. Ao voltar para flechar os agressores, estes já haviam escapado. Com tanta violência, a vingança Wari’, antes de virarem crentes, era tanto física quanto por feitiço: “os xamãs contavam-me que os brancos da cidade achavam que morriam de doenças comum, mas de fato eram atacados por eles”, escreve Aparecida. As onças que comiam os brancos eram os próprios duplos dos xamãs que os devoravam, vingando-se do que haviam feito com os indígenas.

Há uma outra passagem que marcou a minha leitura, e que conta essas transformações nos últimos trinta anos, a partir do ponto de vista da corporalidade. Anteriormente, quando nasciam mulheres hermafroditas (o que parece acontecer com certa incidência entre os Wari’), elas se casavam com homens e adotavam filhos de parentas. Em certas ocasiões festivas, quando jovens indígenas homens vinham para festas, algumas mulheres hermafroditas os chamavam para sentar em seus colos, e ficavam cutucando a bunda dos jovens com seus pequenos pênis. Por conta das regras de etiqueta, estes não podiam se levantar, e todos riam muito da brincadeira.

Com a chegada dos missionários cristãos as coisas mudaram. As hermafroditas passaram a ser vistas como anômalas e muitas foram obrigadas a ser operadas em Guajará-Mirim, e terminaram por morrer em decorrência da operação. Hoje predomina um regime de exclusão com relação às mulheres hermafroditas Wari’, sem possibilidade de constituírem famílias. No mundo Wari’ – em que os corpos são instáveis e existe a possibilidade de pessoas possuírem duplos não-humanos, como queixadas e onças, as mulheres hermafroditas não eram alvo da violência que o pensamento moderno atribui aos corpos considerados fora dos padrões, nos dias atuais.

Cenas de humor, principalmente a partir de desconfortos pessoais de Aparecida em trabalhos de campo e das vindas de Paletó e seu filho Abrão ao Rio de Janeiro, também dão o tom do relato, alternando-se com momentos violentos e traumáticos. A escritora dá a impressão de que é entre a guerra e o riso, o bom humor e o medo que os Wari’ elaboram a experiência de tentar decifrar esse mundo dos brancos a lhes devorar. Na aldeia, Aparecida conta suas experiências alimentícias, que vão de piolhos e larvas a mãos de macacos, deliciando-se com a carne de caça – embora retrate a significativa mudança nos hábitos alimentares de seus parentes Wari’, com a proximidade da cidade.

No Rio de Janeiro, conta as experiências de Paletó e Abrão diante do medo da altura dos edifícios, da entrada nos túneis que cortam a cidade, o receio ao ver surfistas pegando onda, e as reações ao assistirem e analisar fitas cassetes pornográficas que haviam despertado o interesse de Paletó (para o absoluto constrangimento de Aparecida). Mais do que episódios pitorescos, essas histórias nos apresentam um outro ponto de vista, distante, estranhado e divertido, sobre aspectos de nossa vida cotidiana.

Se por um lado o foco da narrativa está no relato da vida de Paletó e da história recente dos Wari´, por outro lado, é a intimidade da escritora que também toma forma ao longo das páginas. Aparecida também emerge como personagem de seu próprio enredo. A relação que estabelece com seus filhos André e Francisco e suas relações afetivas, o carinho de Paletó pelos familiares da antropóloga no Rio de Janeiro, sua predileção por saias longas (pelo menos na época em que chegara para seu primeiro trabalho de campo), suas viagens e seu percurso profissional.

O livro é, assim, um experimento, na medida em que borra disciplinas e mescla estilos e formas narrativas. É literatura, sem dúvidas, explorando o que há de melhor na forma de relatos de não-ficção. E é também antropologia, recriando formas de escrita, dentro uma linhagem que possui como expoentes obras como Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, ou Crônica dos Índios Guayaki, de Pierre Clastres. São todas obras que se colocam como desafio enfrentar questões centrais da antropologia, a partir de um formato de escrita que leva a etnografia aos seus limites, tornando-a quase indiscernível da literatura: como falar sobre o outro? Ou seria melhor dizer como falar com o outro? De que maneira é possível dar conta dos equívocos envolvidos na tradução de outros mundos para a linguagem escrita? Como narrar a vida de pessoas, sendo que elas mesmas possuem concepções radicalmente distintas de pessoas em relação aquelas elaboradas no ocidente moderno sobre indivíduos?

Um sem número de teses e artigos acadêmicos tratam de debater essas questões, mas é no ato de contar histórias que elas ganham corpo. Assim, a obra de Aparecida Vilaça tem o mérito de traduzi-las para uma forma literária sensível e instigante, explorando os equívocos e tensões constitutivos do contato entre esses dois mundos. Uma espécie de ritual de despedida, que não deixa de nos lembrar dos antigos rituais de canibalismo funerário Wari’, descritos pela autora. Aqui Aparecida não come, literalmente, Paletó, mas o recria, literariamente, digerindo suas memórias e experiências. Prepara-o para ser devorado por leitores e leitoras que, certamente, não permanecerão os mesmos após conhecer um pouco e incorporarem em s, algo da trajetória da vida de Paletó, de Aparecida e dos Wari’.

Onde encontrar?

Livro – Paletó e eu: memórias de meu pai indígena.

Autora: Aparecida Vilaça.

Editora Todavia (São Paulo-2018)

Páginas: 200 páginas.

Preço: R$ 49,00.

Fábio Zuker  é mestre em Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS de Paris. Atualmente é doutorando em antropologia pela Universidade de São Paulo – USP. Tenta escrever “de perto” às populações amazônicas sobre a destruição de suas formas de vida e formas de resistência. Como jornalista, publicou reportagens na Agência Pública de Jornalismo Investigativo e no site Nexo Jornal. É colaborador da agência Amazônia Real.

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