Após escapar da censura, 'O Insulto' se torna a 3ª maior bilheteria do Líbano

Quarto longa de Ziad Doueiri, "O Insulto" é um filme-evento. E não apenas por se tratar do primeiro concorrente libanês ao Oscar de melhor filme estrangeiro

O governo foi pressionado para barrar a indicação de "O Insulto" ao prêmio da Academia (http://folha.com/no1953366). Houve tentativas de censura no Líbano e em outros países árabes. Mesmo assim, o longa estreou no país, revelando-se a terceira maior bilheteria libanesa de 2017 —e fonte de inesgotável polêmica.

Doueiri, que é muçulmano, assina o roteiro em parceria com sua exmulher, Joelle Touma, de origem cristã. No longa, uma querela ordinária em torno da reparação de uma calha é levada ao tribunal e se torna o estopim de um conflito político envolvendo libaneses do partido cristão e refugiados palestinos apoiados pela esquerda. Incomodado pela presença palestina na vizinhança, o mecânico Tony Hanna (Adel Karam) destrói o conserto em sua casa feito sob as ordens de Yasser Abdallah Salameh (Kamel el Basha), contratado pelo município para gerenciar obras de urbanização. Yasser chama Tony de algo como "babaca", e este exige desculpas. Quando o mestre de obras se convence a ir à oficina do mecânico ofendido, é recebido ao som de um discurso xenófobo da extrema direita libanesa.

O mecânico dirige-se ao palestino com a terrível frase: "Gostaria que Ariel Sharon tivesse exterminado todos vocês". Yasser perde a cabeça, e quebra duas costelas de seu interlocutor. O incidente gera uma série de repercussões melodramáticas, jurídicas e políticas. Daí em diante, "O Insulto" se torna um legítimo "filme de tribunal". Com atuações convincentes, os advogados de um e outro lados dão corpo a discursos que inflamam a audiência e a população.

Não há como não pensar nas cenas de julgamento de "Fúria" (1936), de Fritz Lang, em que também se tratava de provocar e manipular a animosidade das massas. Há uma referência explícita ao filme do cineasta alemão quando um projetor é levado à corte para exibir imagens do ataque à cidade de Damour em 1976, onde Tony vivia, perpetrado por militantes de esquerda e palestinos. Em "O Insulto", o lugar da vítima e o do agressor estão sob permanente disputa.

O refugiado palestino e o libanês cristão revezam-se em ambos papéis, o que não implica em uma suposta neutralidade do filme, mas garante pontos de vista cambiantes. No embate, importa menos a decisão da juíza do que o diagnóstico das tensões em jogo. Nesse sentido, se o filme defende uma posição, é a da necessidade do trabalho de memória. É preciso reabrir as feridas provocadas pela Guerra Civil (1975-1990) para que elas possam cicatrizar de fato. Doueiri sugere que não há como "virar a página" sem passar por esse processo doloroso.

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