Minha cidade chuvosa

A cidade despenca todos os dias com suas nuanças fantasmagóricas. São goteiras, bicas, telhados e muito chão de olhos para o céu chuvoso. Há muita relva no terreiro das casas e sombras musgosas por entre as pedras dos jardins. Alguns quintais têm restos de coisas quebradas, pernas de cadeiras de madeiras, pedaços de plásticos emergidos em poças d’água e lodo nos frisos dos tijolos. As cores da parte externa das paredes dos estabelecimentos comerciais ficam desgastadas e os tetos de alguns carros guardam manchas provocadas pelo sereno das madrugadas. Desde outubro que a água não dá trégua.

Muitas vezes, quando o tempo é ventoso, é preciso fechar bem as janelas das casas. E assim a cidade enfrenta seu inverno incompreensível, nebulento, resfriado, constipado e defluxuoso. Alguns homens, em dias assim, entram em bibliotecas para acariciar bons livros. E realizam viagens fantásticas, por universos, constelações e galáxias ordinárias. E muitas vezes, estes homens, se demoram a voltar. Demoram tanto que o mundo sente as suas faltas. As mulheres contam que a chuva desses dias, para estes seres, é como uma janela aberta para a alma. Que eles constroem outras realidades e que até traem suas companheiras, constituem outras famílias. Dizem também que estes homens, quando retornam, já não são mais os mesmos. Que eles tem segredos e mistérios herméticos. Arquétipos de uma trilogia ficcional que conta a história das pessoas com olhares distantes, alheias, absortas e afastadas de si. Homens partidos. Enquanto não passar o inverno, e as águas se derramarem tanto sobre dias e noites, as cores serão assim, figurativas mesmas de si. E as crianças vão brincar sem aquela gargalhada que chateia os adultos. Os pássaros terão aquele piu incubado que diz-se do mau agouro.

Quando o homem tocar seu violão na praça, não será ouvido do outro lado da rua por que o tempo pesado impede o recochetear das ondas sonoras. Os gritos dos amigos chamando os seus não serão escutados tão distante. E será preciso mandar um recado por alguém. Este inverno incompreensível na cidade, que está nebulenta, ainda vai se demorar a passar. A sensação de constipação e defluxo permanece como a inflamação da mucosa nasal. Coriza que arrefece também nossos pensamentos sobre tudo que acontece no perímetro dessa cidade chuvosa. E também as nossas memórias ficam desanimadas, sonolentas. Ficam como os quintais das casas e das poças d’água, cheias de musgos e sombras.

Analton Alves

Jornalista cultural e pesquisador na área de Análise do Discurso.

FORMAÇÃO: Letras (Mestrado)

Posts Em Destaque