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Nação Mura e o imaginário feminino de moradoras nos seringais

Posto do Capivara, no rio Autaz-Assú - Habitação dos índios Mura. Fonte: Autos da Comissão de Inquérito na Inspetoria do SPI (Postos da Josefa, Capivara e Laranjal), 1931. Fundo Tribunal Especial, Série Procuradoria (n. 640, vol. IV, depósito 311).

No início do século XVII o sistema hidrográfico do Rio Madeira compreendia o eixo de comunicação fluvial entre o Grão-Pará e o Mato Grosso. A colonização portuguesa avança pela Amazônia mas, no caminho, estão os Mura. Os ataques frequentes às embarcações comerciais do colonizador abrem, dessa forma, um período de guerra que duraria mais de 100 anos. A resistência da nação indígena Mura não findou com as vitórias dos colonizadores. Empurrados das margens do Rio Madeira, formaram um cinturão na floresta, ação denominada “murificação”, “agregando outras etnias, entre elas negros dos quilombos, ciganos, índios destribalizados ou ex-catecúmenos, egressos das missões católicas”.

Relatos de historiadores atestam a presença da “coroa portuguesa” contrária à declaração de uma “guerra justa” com o objetivo de exterminar o Povo Mura. Mesmo assim, os ataques aos indígenas proliferaram mais e mais. Se no século XVIII o contigente dessa etnia chegava entre 30 e 60 mil indígenas, no ano de 1856, de acordo com um mapa estatístico da época, publicado no relatório anual do Império, eles não passavam de 1,3 mil.


Pesquisa

A pesquisadora Márcia Nunes Maciel, mestre em “Sociedade e Cultura na Amazônia”, em seu livro “O espaço lembrado: experiências de vida em seringais da Amazônia”, analisa quatro narrativas orais de mulheres que passaram parte de suas vidas em regiões ribeirinhas situados nos arredores de Porto Velho. Elas trazem memórias de um momento em que indígenas e populações das comunidades não-indígenas tiveram seus primeiros contatos. No pós-colonização, o acontecimento da miscigenação, que traria para a região um novo perfil com evidências na diversidade cultural.

Márcia Nunes Marciel, em sua pesquisa, não traz aprofundamento nas origens geográficas das mulheres entrevistadas, mas apresenta narrativas com grande peso na oralidade que fundamenta a bravia presença feminina na construção do “espaço lembrado”. A construção cultural de Porto Velho através de relatos históricos orais.


Memórias do imaginário popular

ajudam a remontar o cenário regional

Pesquisadora Márcia Nunes, no lançamento de “O Espaço Lembrado”, em Porto Velho

As mulheres de Márcia Nunes têm em particular a soma de suas vivências voltadas para a reconstrução do espaço que hoje compreende a região de Porto Velho e adjacências. Em seus relatos, ela traz a figura do personagem Manoel, um parente seu. Recorte de alguns trechos nos mostram como a realidade da época, início do século passado, se performatizava. Elementos do imaginário e de historização e das relações sociais culturais são apresentados nesta composição de lugar.


Relato

“Um dia, recém chegados, passeando nas prais de barco, encontraram uma uruá muito grande, maior do que todos os uruás vistos naquele lago. Eles consideraram então ser aquele o maior peara dos uruás daquele lago, por isso, deram-lhe então o nome de Uruapiara. Às margens desse lago habitavam a tribo dos índios parintintim. Uma tribo um tanto guerreira. Sua maior pescaria era no grande Ipixuna, afluente do lago do Uruapiara. Às margens de outro rio, vizinho do rio Ipixuna, habitava a tribo dos índios Pirahã, que eram completamente inimigas”.

O relato faz referência ao nascimento de duas grandes festas, atualmente denominada “Festa de São Sebastião e do Divino Espírito Santo. “Instrumentos utilizados na dança do seringador eram o gambá, o xeque-xeque e o reco-reco. Quando a dança passou a ser diversão do povo civilizado acrescentaram o pandeiro na lista dos instrumentos. E até hoje essa festa acontece no Lago do Uruapiara. Muito apreciada pela gente daquele lugar e admirada pelas pessoas que assistem as suas festas, sendo estas as mais antigas e tradicionais, fundadas pelos portugueses ainda no século passado”.

Para a pesquisadora, a história contada por Manoel é uma história coletiva, porque é reconhecida por aqueles que se sentem parte da comunidade que se deslocou no lugar lembrado, “carregando uma herança cultural também presente no contexto das narrativas de Francisca, Glória, Ester e Izolina.

As lembranças das mulheres entrevistadas pela pesquisadora Márcia Nunes concentram elementos que ficaram ausentes das publicações oficiais. Uma prova de que através da oralidade, no resgate de memórias, muitos fatos ainda podem ser incluídos para compor novas literaturas. Estas novas, mais próximas e contextualizadas às realidades vividas pela própria comunidade. A partir de seleções de relatos, muitas histórias que compõe a memória coletiva.


Mulheres apresentadas em pesquisa relatam

vivências em seringal no início do século passado


A obra da pesquisadora Márcia Nunes Marciel, doutoranda em História Social pela USP, apresenta as narrativas de quatro mulheres, Francisca, Glória, Ester e Izolina, que em seus espaços afetivos, protagonizam “experiências, sonhos, dores e amores”. E, através de relatos, cada uma expõe episódios vividos na mata de seringal. Em alguns trechos relatados, as marcas de elucidação de um passado ainda presente em suas próprias memórias.


A relação das entrevistadas com o espaço que compreende a região de Porto Velho é de uma autêntica luta pela manutenção de seus valores através da força de resistência histórica que participam. Através da oralidade, condensando narrativas de um imaginário popular, as pesquisadas remontam o episódio que propiciou a formação e transformação do espaço amazônico. Francisca, Glória, Ester e Izolina são as protagonista no livro de Márcia Nunes, mas, carregam outras inumeráveis performances que ajudaram a compor todo o cenário.

Atuando junto às comunidades indígenas, quilombolas, extrativistas e urbanas, na construção de sustentabilidades locais e reivindicações de seus direitos, a pesquisadora Márcia Nunes consegue, sem explicitá-los bem, apresentar o ambiente que, no passado distante, sustentou a perambulação de grandes nações, tais com a dos Mura, Munduruku, dentre outras.

O livro de Márcia Nunes nasceu do interesse em ouvir as histórias de vida de pessoas que vivenciaram o espaço do seringal da Amazônia, para, a partir delas, perceber as imagens construídas sobre seus espaços vivenciados, os afetos, as batalhas, as dificuldades, os amores, as dores, os sonhos. “Vale ressaltar, que este livro é resultado de um trabalho em colaboração com a história oral. As narrativas das quatro mulheres, Francisca, Glória, Ester e Izolina nos trazem outras possibilidades de leituras sobre o espaço do seringal e diferente da historiografia oficial, elas são vistas como sujeitos da história. Sendo assim, outras imagens sobre esses espaços vivenciados se delineiam.

RELATO

“A primeira vez que os índios apareceram, eu era criança, a gente morava lá no Uruapiara. A mamãe estava lavando roupa... (...) Que quando ela enxergou! Ela disse: Olha quem vem! Duas canoas de índios, eles andavam na casca de pau. Dessa invira, não sei como aguentava aquele monte de homem. De bicho... Sei lá o que eles eram. Aí eles chegaram e a mamãe nos trancou no quarto e ficou só ela fora. Aonde eles chegavam, o que eles pegavam iam levando. A mamãe botou as baciadas de roupas pra dentro e trancou. Ave Maria! Quando a gente enxergava os índios podia esconder tudo que eles levavam tudinho o que a gente tinha. E nós escondidas no quarto. Depois eles ficaram civilizados. Hoje em dia eles já andam junto com os civilizados. Já tem civilizado casado com índio”.


O seringal no município de Lábrea:

“a condição da mulher na estrutura do seringal”


O pesquisador Antônio Carlos Galvão da Silva, Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia, desenvolveu a pesquisa “O Seringal no município de Lábrea: o espaço vivido e a resistência de um tempo”. Na obra, o autor destina um capítulo à presença da figura feminina. Denominado “A condição da mulher na estrutura do seringal”, o levantamento expõe a situação a que estas foram investidas. De acordo com Galvão, amparado pelas pesquisas bibliográficas que fez, foram registrados entre os anos de 1941 a 1945 a entrada de 46.955 mulheres no porto de Manaus, sendo que no mesmo período foi registrada a saída de 39.426, das quais, a grande maioria destinou-se ao interior do estado do Amazonas.

“Os dados mencionados nos levam a questionar por que a mulher ficou praticamente à sombra dos relatos históricos do período, exploração extrativista. Será que esse contingente tão expressivo não contribuiu de maneira significativa para o processo de coleta do látex? Isso porque estamos nos referindo apenas a um período de cinco anos de migração, sem levarmos em conta o início do processo migratório na década de 70 do século XIX até 1960, onde a estimativa aponta que cerca de 500 mil nordestinos saíram de suas regiões para tentar a vida e, deste modo, fazer a Amazônia”, explica. Galvão também ressalva, em sua obra, que mulheres e crianças, salvas de maus tratos, eram obrigadas a serviços forçados nos seringais da região.


O livro

O livro é fruto de pesquisas desenvolvidas, no período de 2006 a 2008, com ribeirinhos moradores de comunidades localizadas no rio Ituxi, afluente da margem direita do rio Purus, no município de Lábrea, sul do Estado do Amazonas, bem como com alguns ex-seringueiros que migraram para a sede deste município. Teve por objetivo analisar o processo histórico do seringal no município de Lábrea, assim como o trabalho de ribeirinhos no meio onde vivem.


Episódios que marcaram a grande

batalha entre indígenas e colonizadores


  • Calcula-se que a população Mura, em 1926, distribuída nos rios Madeira, Manicoré, Autaz, Purus e Urubu, somava cerca de 1.400 pessoas. Nimuendajú relacionou, em 1926, cerca de 1.390 Mura, em vinte e seis aldeias no Madeira, Autaz e Urubu, com admissão de um total máximo de 1.600 índios.

  • Os aldeamentos indígenas Mura, no final do século XVIII, estavam assim distribuídos: a) Imapiri: 200 pessoas, entre Mura e Chumana; b) Mamiá: 250 Mura; c) Manacapuru: 523 Mura; d) Guautazes 1.442 pessoas, entre Mura e Iruri; e) Airão: 60 Mura; f) Piraquequara (Japurá): 300 Mura.

  • O gigantesco território dos índios Mura, com estimativa populacional Mura entre 30.000 e 60.000 índios, leva em conta o nomadismo e o movimento de pequenos grupos como um dos fatores determinantes da espacialidade Mura, que avança e desloca-se do rio Madeira para o Japurá.

  • Por volta de 1744, a aldeia jesuíta de Trocano (hoje, a cidade de Borba) substituiu a de Santo Antônio das Cachoeiras e, mesmo com a mudança, os jesuítas não se viram livres dos Mura, que investiram contra a aldeia de Trocano.

  • O governador Mendonça Furtado visitou uma aldeia, em 1755, e foi recebido pelo missionário padre Anselmo Eckart. Fontes da época afirmam que, para saudar festivamente o governador, que já então se encontrava em rota de colisão com os jesuítas, dispararam os malfadados canhões. Mendonça Furtado teria entendido que essa seria uma demonstração de ânimo pouco pacífico dos jesuítas e converteu a aldeia do Trocano na Vila de Borba, iniciando com este incidente a política de secularização das missões na Amazônia.


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