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Mulheres de Teotônio têm história de luta pela permanência na comunidade


História de mulheres assentadas mostra superação em luta de grandes proporções






O processo de implantação das usinas do Rio Madeira trouxe grandes perspectivas para a região mas, também, uma imensurável desordem e desarrumação social. Principalmente no espaço que compreende a Capital, Porto Velho, as alterações tiveram mais consistência. Um dos estudos realizados por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia, sobre a comunidade denominada Vila de Teotônio, mostra um conjunto denso de problemas que os próprios moradores tiveram que absorver diretamente. E, sobre as mulheres, o “fardo” mais pesado.


De acordo com Gerlane Valéria Lima, pesquisadora de Geografia, em seu estudo sobre “Identificação e temporalização dos impactos ocasionados a partir da implantação da usina de Santo Antônio”, o rompimento com a realidade do período pré-usinas deixou uma lacuma que não pode ser preenchida com a reconfiguração do lugar. Segundo a pesquisadora, os moradores perderam um pouco de identificação, após a mudança para a Nova Teotônio, por estarem adaptados à vida diante dos recursos naturais. “Pesca, turismo, dentre outras práticas, deixaram de existir para eles”.


TEOTÔNIO


As mudanças foram ainda mais sentidas pelas mulheres que, em mais de 90% dos casos, levavam uma “vida às margens da cachoeira, cuidando dos afazeres domésticos e das crianças”. De acordo com um dos estudos desenvolvidos junto à comunidade, muitos homens trabalhavam na cidade e já levavam uma vida, em parte, urbanizada. Porém, as mulheres, principalmente as mais idosas, estavam, antes da construção das usinas, em perfeita harmonia com o lugar. “Elas sofreram toda a força desse impactos e suas vidas foram massacradas”, explica Jeferson Marcelo.


A moradora Maria Alencar, que disse ter criado todos os seus filhos na localidde, confessa não ter se acostumado com a mudança. Ela lembra de um momento, quando ainda era criança na cachoeira, em que as pessoas decidiram sair do local em função da falta de peixes. Mas, foram as mulheres que convenceram os maridos a permanecerem ali.


NOVO CENÁRIO


Professora da Universidade Federal de Rondônia, a pesquisadora Marcelle Pereira, durante entrevista ao Diário da Amazônia, fez ressalva ao momento atual como um instante de grandes mudanças. Segundo ela, a história da mulher demonstra “que enfrentamos u ma luta social muito grande” pela inserção dos valores devidos. “As mulheres lidam diariamente com uma série de questões. É preciso colocar isso de forma menos injusta”.


Pesquisadora explica que as mudanças estão

trazendo uma mulher muito mais participativa



A pesquisadora Marcelle Pereira, da Universidade Federal de Rondônia, ao comentar sobre a ausência da mulher em alguns aspectos e abordagens históricas atuais, ressalta que muitos trabalhos estão sendo desenvolvidos e também existem pesquisas de nível considerado sobre gênero. A questão, segundo a professora, é que ainda há muita força contrária em sociedade que precisa ser enfrentada. “A história das mulheres demonstra que enfrentamos uma luta social muito grande. As mulheres lidam diariamente com uma série de questões. A posição da mulher em sociedade precisa ser posta de forma menos injusta. Mas, isso ainda é um reflexo da conjuntura atual que enfrentamos”, explica.


Para Marcelle Pereira, as mulheres contribuem em todos os seguimentos e estão presentes em todos os processos. Porém, a ênfase que se dá aiinda não acontece de forma justa à sua participação. “O destaque que se dá à presença feminina nesses processos é de fato o que muda. Quando se diz que nas publicações o foco de estudo reduz a participação feminina, acredito que isso vem sofrendo mudanças”, argumenta a pesquisadora.

Marcele Pereira também argumenta que já existem muitos trabalhos que mostram a mulher de um jeito bem diferenciado. “Ainda existe um machismo que pensa a mulher com restrições. Mas, isso tem sofrido mudança”.


DESBRAVADORES


Sobre a participação da mulher no cenário da migração regional, Marcelle Pereira lembrou que o papel feminino foi preponderante e pouco lembrado. “A mulher foi responsável pela educação, formando as novas gerações. Mas nos perguntamos, onde estão as pioneiras? Temáticas como estas já chegaram aos meios acadêmicos e possibilitam grandes discussões. As mulheres, como também as crianças, e outras categorias excluídas, são ouvidas agora. Há muitos grupos de pesquisa e trabalho que lidam com a questão de gênero. Grandes especialistas desenvolvendo debates sobre essas temáticas. Abordagens sobre ribeirinhos, indígenas e tantos outros”, explica.


Ao finalizar, Marcelle também esclareceu que as narrativas das mulheres passam a fazer parte da constituição histórica de estamos desenvolvendo. Para ela, isso é uma comprovação desse avanço. “Ainda temos muito por fazer. Muito caminho para percorrer até possamos deixar de perceber isso como fator de diferença. Precisamos compreendê-los, os excluídos, como sujeitos de cultura de forma mais integrada”, finaliza.


Professor diz que mulher era tratada pelo homem colonizador como objetivo de sua conquista



Para o professor da Universidade Federal de Rondônia, Miguel Neneve, a presença do homem no cenário das mudanças mundiais tem sido forjada em sua própria característica colonizadora. “O homem já é mais colonizador. Ele sai sozinho e tem a terra como mulher. Daí por exemplo, o nome de America, como se fosse mulher de Américo Vespúcio. Lábrea no Amazonas, porque o colonizador era coronel Labre. Virginia, para dizer que a terra era virgem e homenageava “the virgin queen”, que era a Elizabeth I. Então o espirito colonizador já vai esquecendo a mulher.


A mulher deve ser a colonizada, como a terra. O professor explica que a postura masculina, propícia às descobertas, sugeriu, em parte, algumas características desses contextos históricos. Ele também lembra, para exemplificar, um poema de John Donne, no séuclo XVII, que escreve um poema erótico pedindo para a mulher se despir e depois na segunda estrofe diz: “Oh minha América, minha nova terra a vista...minha mina de pedras preciosas”. Para ele, um bom exemplo de que a mulher era considerada uma colonia. “Aqui em Rondônia, em outro tempo, outra época, dá para ver uma associação com a colonização da America. O colonizador sai de outro lugar, geralmente homem, (muitas vezes vem antes da mulher) e vai “possuir” a terra, a mulher virgem, a colonia”.


As mulheres da comunidade de Teotônio e o reassentamento



Gerlane Valéria Lima, pesquisadora de Geografia, Universidade Federal de Rondônia, em seu estudo sobre “Identificação e temporalização dos impactos ocasionados a partir da implantação da usina de Santo Antônio”, junto à Nova Vila de Teotônio, mostra como os moradores se reajustaram ao novo momento pós-usinas. Segundo ela, a implantação das usinas provocou grandes impactos, mesmo antes da implantação da obra.


Gerlane Valéria também explica que em um segundo momento, na retirada de suas casas para o reassentamento, estes moradores passaram por perdas consideráveis. Dentre estas, suas fontes de renda. “Eles passaram por um período de reconfiguração na organização social que tinham. Perderam os recursos naturais. Com isso, em nossa pesquisa, verificamos grande transformação com a ausência da pesca e turismo. Isso, não se pratica mais. Houve queda no movimento local de pessoas. Rompimento total em alguns pontos, tais como agricultura familiar que era praticada na vazante do rio. Tudo isso, desarrumações sofridas por estes moradores”, explica.



De acordo com a pesquisadora, a população, quando da mudança para a nova vila, era de cerca de 30 pessoas. Ela explica que muitos moradores não migraram para o espaço novo em função de já sentirem que não se adaptariam ou, por preferência às mudanças. “Muitos perceberam que não receberiam os suportes para uma vida no novo lugar. Optaram por comprar moradia na região urbana, ou mesmo, em outra comunidade”.


Na época, de acordo com a pesquisa, houve proposta de indenização e reassentamento. Os que resolveram permanecer na Nova Vila, em sua maioria, acreditam que a situação foi de piora, pois as atividades que desenvolviam anteriormente já não existem mais. Os atrativos para que permaneçam no local são poucos. “A cidade de Porto Velho visitava a cachoeira e realizava a pesca turística. A comunidade realizava o comércio local para os visitantes. Mas, isso acabou. As mulheres sempre foram as mais envolvidas com as atividades de recepção ao turista. O novo momento é de total isolamento dessas atividades”.


Mulheres possuíam visão particular “e diferenciada da sociedade


As grandes dificuldades enfrentadas pelos assentados do Projeto Joana D’Arc III, no início da implantação, motivaram o abandono da área por dezenas de famílias. Mas, de acordo com relatos de pesquisadores que ainda investigam as relações do local, entre homem e terra, foi a postura feminina, mais anseiosa por um lugar de paz, onde pudesse criar e manter seus filhos em área que fosse sua propriedade por direito, que assegurou “essa espécie de barreira de resistência”. Um dos aspectos da pesquisa de Cláudia Nascimento diz respeito às relações de gênero dentro da história de lutas dessas famílias. Segundo a pesquisadora, o assentamento Joana D’Arc III apresenta um cenário adequado para o desenvolvimento das discussões propostas. Ela também explica que os dados coletados propiciaram a dedução de que as mulheres do assentamento possuem uma visão particular “e diferenciada de seu papel na sociedade. Ao passarem pelos processos de luta elas começaram a perceber a importância dos movimentos e começaram a buscar os seus direitos”.


A pesquisa de Cláudia Nascimento centra seus pontos de discussão na participação da mulher pela construção do lugar, as influências do conflito de Corumbiara no processo organizacional da comunidade e as características desse novo espaço, o assentamento Joana D’Arc III. Durante entrevista ao Diário da Amazônia, Cláudia explica que na luta pela terra muitas mulheres tinha atuação, muitas vezes, até mais incisivas que a dos homens. Elas trabalhavam auxiliando nas plantações e ainda desempenhavam os trabalhos doméstico, cuidando da comida e dos filhos.



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